quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Filhas da Mãe!

A filha da mãe
de um amigo meu
é igual a filha
da minha mãe
é tudo igual
mas eu não sabia

que também eram iguais as filhas...

E já são três noites e três dias
que não se vê cor nem notícia

E essas filhas da mãe
ainda nem ficaram famosas
apesar do brilho e da purpurina
egoístas.

- Eu vou ficar na frente da tevê,
- Oh, eu vou ficar...

Ou então, os amigos das filhas
que nunca seriam meus amigos
Ou então, as filhas dos amigos
da minha mãe que seriam mães
Ou então, os filhos das amigas
das filhas das mães dos meus amigos

Hão de sentar ao meu lado
para ficar na frente da tevê...

E logo o dia raia
e as filhas das mães vão trabalhar
E logo raia o dia
e as mães das filhas vão trabalhar

Um recado no celular
pra combinar
o almoço. Mas, eu não posso
estar, pois prefiro
Star
e almoçar
com meus amigos,

pra comer e ver os gols na tevê
pra comer e ver os gols na tevê
pra comer e ver os gols na tevê

Eu só quero estar com elas
depois disso. Eu só posso estar
com elas depois disso.

Eu só
ela só,
mãe só,

Star.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O Trânsito Pós-Moderno

É quase que um desmantelo: sempre que me aproximo de um entendimento, perco o fio da meada em um único lance.
Desfiando anter de tecer, pensava eu que aquele Big Ben, tão absurdo e tão óbvio, faria emergir a identidade originária de meu ser... Então ele, comprazido, retomaria seu posto - dizendo "olá" e convivendo com o outro eu, de quem tanto desejo me desvencilhar.
Mas não. Só encontrei o incompreensível, o esquecimento - um desespero sem quê que cause algum desconforto ou euforia. Como se o último e primeiro fios fossem um só, dois pontos de uma reta; Ou mais: como se eles estivessem tão distantes, que o liame seja impossível, com a blusa de lã a minguar no terceiro tricote.
Ou ainda: nó em gota d'água, pra ficar com uma expressão mais prosaica... Mas não, nem isso! De duas gotas faz-se uma, já de dois eus faz-se um não-eu. E talvez seja isso, isso mesmo! - Pois só assim eu atingira algum nível de entendimento sobre mim. Com um não-eu. Mais legal, pop, surpreendente e raso. Menos insuportável.

Sinto hoje que esse elo, pouco a pouco perdido, me abriu uma ferida e cicatrizou em algum outro lugar onde não me feri - e eu, disfarçado com tantas lembranças inúteis, com dor nos ossos tomei um analgésico para dor de cabeça.
Como se a identidade perdesse toda e qualquer possibilidade de significado, e só sobrasse o meu nome. Como se uma ordem - uma ordem cordial e insidiosamente generosa -, aparecesse diante de mim em letras garrafais, sobre as verdes placas que sobrevoam as marginais:
Rodovia para o Litoral à direita. 60 quilômetros.
E lá, na orla e na boa, esqueço de tudo novamente, e sou o mesmo, homeopático...

Então, deito minhas existências para que as mãos de minha namorada massageiem minhas costas, num conforto que dispensa todas as reflexões inúteis que fiz acerca de minha alma durante a vida inteira.

Pose, Pecado e Silicone

Baila como quem grita
calado. É mais elegante
- e inclusive, sensual.
Que essa comissão
de plástico, e essa
missão
de plástico
míngua tão logo acaba
a segunda
foda.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Filosofaça ou o Marmitex de Marx e Marcuse?

Máquina Psicanálise Indústria Ideologia Fumaça Músculos Tecnologia Analgésicos Status Arte Religião Comunicação Desfiles Despautérios Eros Civilização e Etecétera - le turbillon social - com nosso honrável Rousseau no limiar e o traumático Marcuse na trajetória da bola, a lançar seu rumo para o gol do injuriado Marx, que não joga de luvas e orienta seus zagueiros com a apática frase: "Tudo que é sólido desmancha no ar".

Com os instrumentos deste turbilhão social a engendrar a máquina freneticamente, seja num movimento à favor de seu vapor ou em prol de uma mudança de trajetória, o fato é que toda ação - do ponto de vista dos traumatizados da teoria crítica - se revela como a incapacidade de driblar ambições e de estancar o sangue que jorra de suas turbinas. Homens, que deveriam controlar suas vidas com autonomia e produzir de acordo com sua racionalidade, se se entregam ou se rebelam contra as estruturas vigentes, pouco importa... São todos levados por uma locomotiva que sempre tem o mesmo destino.
À parte com os determinismos, acolá com o destarte, aqui com os efetivos: A transformação da esclarecedora razão em conhecimento científico, do conhecimento científico em tecnologia, e da tecnologia em aceleração da produtividade - uma ordem de trampo que já não mais consegue descernir fins de meios. Ou ainda, resumindo tudo isso com uma frase de efeito:

"Como um pau duro que perdeu todas as possibilidades de mãos e orifícios - mas que não deixa de ficar enrijecido".

Sob um contexto em que os sistemas de comunicação de massa parecem realmente dissolver os indivíduos numa massa pasteurizada, a leitura dos traumáticos críticos traduz mesmo toda a angústia posterior ao enfadonho sentido do ideal da revolução francesa, "liberdade, igualdade e fraternidade" - ditos que hoje parecem remeter, num átimo, aos seus respectivos antônimos -, a todo o cinismo consequente do fracasso da revolução de 1917 como possibilidade de vingar a substituição da condição humana pelo capital (só para parafrasear da forma mais brega possível os apaixonados pela barba comunista), bem como a de salvar utópicos e socialistas do caráter mercuriano da industrialização da vida e, subsequentemente, toda a hipocrisia decorrente do desenlace banal e patético das revoluções de comportamente e de consumo que a década de 1960 parecia anunciar com a pílula anticoncepcional e com o rock'n'roll: Os "Hippies" tornaram-se "Yuppies", trocaram a bata de seda pelos ternos de linho, as drogas lisérgicas por sofisticados carros alemães com estofado de couro... A própria dilética se manifestando - mas, para quem for um pouco mais astuto, basta anotar que a locomotiva na qual os homens embarcaram nunca, absolutamente, saiu do lugar.

Um dos ícones dessa geração, depois de cantar "She loves you", desilidiu-se e decretou: "The dream it's over" -, dando o ponto final numa euforia vã que só validou ainda mais os imperativos da coletividade sobre a autonomia do sujeito. Para alguns radicais, essa atitude crítica, consciente e já desprovida de deslumbramento para com a "máquina" (pode-se ler, como sinonímias, democracia e neoliberalismo), foi mesmo a bala no tambor do revólver de seu assassino. John Lennon, reacionário ou revolucionário, não importa o adjetivo - morreu devido a ambos. O sonho nunca pode acabar para quem opta por continuar dormindo, para quem vê no sucesso de um ídolo o único conforto para sua acachapante realidade. Só quem é publicitário pode realmente gostar de intervalos comerciais...

A verdade (?) é que, tanto um quanto outro, revolucionário e reacionário emolduram um mesmo quadro. A vida na modernidade é radicalmente contraditória em sua base, e suscita sentimentos tais quais essas contradições. Carlos Drummond de Andrade, nosso poeta do povo e intelectual de esquerda, versou, numa mesma obra, sintomas que resumiam o caráter dessa sociedade consumida pelo consumo, perdida na coletividade, oscilante com suas ideologias: "Não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattam". As lutas de classe são obsoletas, seus personagens são seres de alma vazia, suas idéias não são originais, suas ações são dirigidas, suas vidinhas são, literalmente, administradas. Não adianta tomar a razão pelas mãos e levar a cabo uma justiça que, aparentemente, urge para ser executada.

Só para ilustrar essa dicotomia, mais uma dose de literatura: Raskólnikov, protagonista do romance Crime e Castigo do escritor russo Dostoiévski, consegue justificar seus atos perante a opressora lei e aos ditames morais da sociedade - mas não consegue escapar do seu drama interior, não emancipa sua mente destes mesmos ditames morais que o impulsionaram a cometer um crime pensado e legitimado racionalmente, e seu castigo é outorgado por si mesmo. O poeta do povo volta para explicar uma saída, dar uma solução, um remédio que apazigue toda essa angústia: "Chega um tempo em que a vida é uma ordem / A vida apenas, sem mistificação". Oras, trata-se aqui da perca da subjetividade, da dissolução do indivíduo no coletivo, da reificação do homem enquanto mero instrumento de trabalho, da extinção de seus dramas psicológicos, de suas contradições, de seu "em-ser". A vida é uma ordem, a engrenagem não pode parar de rodar, a locomotiva tem de estar sob os mesmos trilhos, expelindo o ar bochorno que dopa a mente de seus passageiros.

Uma postura crítica diante dessa realidade talvez amenize a dor dessa angústia (só para parafrasear de maneira incisivamente emocore a alma dos leitores de Freud e etecétera), mas, ao menos por hora, não ouviremos poetas cantando utopias e entoando hinos de alegria... Conforte-mo-nos com o futebol e a vida dos famosos. Façamos reflexão de nossas próprias condições primeiro para depois pensar de uma forma mais abrangente, pois uma se encontra na outra e não há sociedades saudáveis sem indivíduos sãos.
É só olhar para os U.S.A., com seus altos níveis de colesterol e obesidade. O Obama é só fachada, galera... A realidade está, há tempos, nas mãos de Homer Simpson.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Publicidade Sem Idéia nem Métrica

Dá para a laje
dos impuros. Melhor
chamá-los assim.

Hoje, e há tempos,
nem me lembro des-
de quando nego
apaixonados adjetivos
e culpas. Foram-se os
mistérios, o suplí-
cio sumiu.

Não quis, ademais,
corações. Bocas
bastam - pelo menos,
até a próxima
inflamação de gar-
ganta.

Na quieta visagem, luz, cor
e Raiva.
Necessidade
e Raiva.
Orgulho e Raiva,
Amor e Raiva,
Comida e Raiva,
Conforto e Raiva,
Blá-blá-blá e mais
raiva...
Ela é minha esposa
e a ela fiz a promessa mais corajosa
de fidelidade. Bombas,
balas,
doces,
corpos se apresentam
como se quem dissesse verdades
a um estúpido qualquer.
(Que a verdade deve ser privilégio de poucos,
por trazer um azar tremendo).

Desce daí então a via natural
erótica e pungente na sua condição:
a língua no sexo faz o trote
de calma e anestesia. Mas essa arte
será mordida novamente
pela Raiva. E não adianta
chororô.

A única saída, dizem,
é fazer Publicidade e Propaganda
e ser, num prédio manso, o atroador.

Ou ainda, em divina re-
ceita:
deixar de pensar
com a consciên-
cia
e com a bo-
ca.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Dropes Made in Assunción


Querem o desperdício.

Eu, displicente
cortei um dedo e o joguei no lixo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

No telefone, Verão e Inverno

Cresce a expectativa na mesma proporção com que cresce a necessidade: do prazer ao vício, gradativamete... E aí, o tutâno fica ainda mais longe - há de ter dentes de roedor para a ele chegar.

Escondo-me como se quem esperasse pelo grau superior ao já estabelecido: calor e máquina, à todo vapor. Na eloquência de Lobão, entôo: a glória da minha tristeza.

Afloro como se quem não quisesse florescer, pois a espreita é mais curtida que a brisa escancarada. Tão consciência, essa mania de preservamento? Certamente que não. Cada camada foi descascada por Freud, tal como toda a esquizofrenia light que outrora citei como sintoma - e não como glória.

Aliás, sobre isso, a única Glória que eu conheço é a da Patty Smith, crescendo tal qual sua eloquência. "Jesus morreu pelos pecados de alguém - mas não pelos meus"; A culpa sempre sendo negada para que a alma se iluda com o mesmo prazer com que sonha levitar.

Mas, ela nunca sai do chão - e é aí que a merda reside. As expectativas crescem, as árvores brotam... E quando suas sementes não cumprem a promessa imediata e inevitável de perpetuamento, o solo se orna de ervas daninhas e passa a dopar antes de encantar: Erva, erva, erva e merda.

Outras considerações: Bolero. Que o sucesso de outrem, quando não incutido no nosso, esmaga cada migalha de ego - e o que resta é um sorriso irônico. Não é para entender, mesmo (se liga no flash)... Trata-se de entrega, de ouvir o que se deseja ouvir, mesmo que isso lhe custe uma confissão de que o egoísmo vem na frente da benfeitoria incondicional ao amor maior.

Que o zêlo é esquecido quando diante de um pedido inconsciente:

- Por favor, poderia você disfarçar a minha mediocridade com sua paixão ardente?

Ou, nem isso... Ritmo e passo não precisam, via de regra, serem compassados com a harmonia das estações...

Pois o próprio diabo não dançou a música divina antes de entoar contra a própria?

É... Ou isso, ou nós sempre estaremos perdidos. Basta a tudo e a todas as coisas, boas resoluções nas horas certas:

- Desculpe-me, mais uma vez. Prometo deixar uma flor na cabeceira da sua cama da próxima vez em que eu for ignorante.

No rolê da Dilma e do Zézão

As dores da ministra
tudo aquém
do limite do que é impossível

O vai-e-vém dos predicados
antagônicos entretém
Senadores como num rito...

Foram embora os políticos
[ ficaram evangélicos.
E se é pela boca que morre o peixe
por ela também ele
torna a nadar.

O retorno do Eterno
enquanto boçais e merdas se aglomeram
em volta de sua vã esperança
a exalar todo o odor que dopa
e a babar diante das urnas.

Ele se unge com sua própria merda
[ que só ela, sendo sua, pode ser idônea
e rege uma platéia sempre pronta
para ficar de bico fechado
- pois expressões Boquiabertas,
nunca mais.

Então, traças - eis a maciez dos panos
ilustres a cobrir aquela gente
antes menos elegantes
que espertas.

As intenções deles, há de se notar e de se fichar:
Calhordamente mansas
e passíveis de perdão...

Pelo menos, enquanto pudermos esquecer
e nunca conhecer
Amapá e Maranhão.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O Elo e Ela

Era das eras que outrora prometeram ser, exatamente, eras: Ostracismo e desdém, ceticismo e burocracia no vai-e-vém. Mas, eis que chega, finalmente, o contra desses contras disfarçados de prós: Língua e lábio, lábio e sexo, com vigor e afirmação poética. E está tudo lá... Está tudo nela - ou na pupila, ou na alegria, na esperança - antes, maquiada de medo do fracasso. Em outros tempos, dir-se-ia que a expectativa se aguava tão logo nascia: Euforia. Não mais, não agora... Vislumbro cada curva, cada gota e cada gemido como se quem biografasse os passos para o desabrochar de uma flor, uma flor de sorriso.

Pois o sorriso, antes apático e dopado pela necessidade de se esboçar aos quatro ventos, este nunca brotava com o vigor e a beleza de uma rosa escarlate. Mais que vermelha, afirmo e ponho: Paixão violenta. E que essa fraqueza, essa fraqueza de almejar aquilo que já detenho no amanhã das estatísticas, essa anemia não me abate mais - sobretudo quando diante das bochechas coradas de minha amada.

Eis-me, mundo de simpatias e mandingas e correntes e conselhos tais como "tudo dará certo, é só uma fase"... Eis-me cônscio de minha felicidade, eis-me agarrado na flor que brota e não murcha, e não murchará enquato manter esse sorriso escancarado. Mesmo na solidão, mesmo na canção melancólica a embalar filmes já vistos e discutidos nos divãs e nas assembléias de literatura, as insídias francesas e as neuroses inglesas, deglutidas e vomitadas por nossa originalidade tupiniquim: Violência e vermelhidão em cada letra, tomo nota e coloro com a distração de um garoto verdadeiramente apaixonado.

Não aos trópicos de câncer e às intensidades mais do que vadias, por serem insalubres. Meu sim, meu eterno e cômico sim, pertence a uma única pessoa.

Vês?

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Smiths e pastilhas de gengibre


Nada disso deveria pairar
depois de tanto tempo ensaiando
depois de tanto tempo colorindo paisagens
aparentemente mórbidas

Bem, elas deveriam estar pálidas, suponho
"uma visão mais verdadeira", você disse,
e eu, eu não pude pensar em nada
além das mentiras que desenhamos juntos.

Talvez em algum lugar mais espaçoso
onde as pessoas não sintam a necessidade
de dizer "eu te amo" a cada novo encontro,
ou querendo trocar figurinhas recém-impressas
por versos desbotados num caderno esquecido
na gaveta de nossas memórias.

Mas isso deveria me fazer sorrir
e ver, enfim, que minha vida sempre fez sentido
e sempre foi real, tão real...

Isso deveria fazer eu ter vontade
de esquecer todas as outras histórias que vivi
como aquela chance imbecil que desperdicei
e só você aplaudiu.

Estou atrás de lentes grossas,
e quando me lembro do quanto fui triste
e do quanto ganhei com toda aquela tristeza melodramática
é que consegui realizar meu lugar no mundo.

E ri como há muito não ria.
E ri como não poderia rir...

Mas as pessoas querem dançar agora
enquanto meu estômago ronca de ansiedade e nôjo
das unhas que comi com uma postura de idiota.

De uma forma ou de outra,
algumas verdades certamente irão contrastar com a batida
e eu vou prever a dor de sentir euforia
enquanto alimento um drama...

Isso não deveria pairar
depois de tanto tempo desenhando
depois de tanto tempo explicando
que eu não tenho culpa disso tudo...
Oh, que eu não tive culpa.

Isso não deveria fazer eu sentir vontade
de cantar as cólicas da sua realidade
de tentar decifrar as fórmulas desses analgésicos que você toma
Pois eu não encontro remédio para as minhas dores, querida
Eu simplesmente tenho que ficar calado
e esperar a euforia do dia seguinte.

Talvez eu esteja mais do que bem
mas essa tristeza me motiva tanto
Essa tristeza me motiva a descrever algo que eu perdi
junto das unhas que engoli, com um desdém aflito.

Então eu ri como há muito não ria
e como não poderia rir?

Me diga, querida,
você não riria?
Como eu poderia não rir?
Oh, como eu posso não rir?